Todas as reinações de Lúcia

por Magno Silveira em 26/08/2013

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“Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar” (Monteiro Lobato em carta ao amigo Godofredo Rangel)

 

ma de minhas predileções é pesquisar Monteiro Lobato. A inquietação do escritor, editor e empresário surge a toda hora. Reinações de Narizinho é um exemplo disto e vale a pena analisar como foi construído esse nosso clássico. Narizinho nasceu bem diferente de como o conhecemos hoje. Lobato construiu seu primeiro livro infantil como quem vai cerzindo uma ilustradíssima colcha de retalhos sem deixar de mandar bala, em artigos e contos, nos assuntos de gente grande – entre outros feitos, ele escancarou nas urbanidades o interior de um Brasil agrário e arcaico. Tema atrativo, mote para outras postagens de jecas e urupês.

Aqui, vamos nos deter apenas sobre a inquietação que construiu as histórias de Lúcia. As aventuras da órfã num sítio edênico rodeada de avó, de cozinha gostosa, pomar e ribeirão, estão registradas num livro que nasceu sob o nome de A Menina do Narizinho Arrebitado, engordou como Narizinho Arrebitado, cresceu n’As Reinações de Narizinho, depois se partiu em Novas Reinações de Narizinho e, anos depois, juntou-se num só livro, aquietando-se finalmente como Reinações de Narizinho.

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A Menina do Narizinho Arrebitado, 1ª ed., capa de Voltolino. Edição fac-similar. Col. Magno Silveira

 

Após o ruidoso sucesso de Urupês em 1918, Lobato estreia na literatura infantil em 1920, com a A Menina do Narizinho Arrebitado. O álbum, de primorosa edição, chega a ser recomendado como presente de Natal. A folha de rosto destaca tratar-se de livro ilustrado: “Livro de figuras por Monteiro Lobato com desenhos de Voltolino – Edição da ‘Revista do Brasil’, Monteiro Lobato & Comp. São Paulo, 1920”. De fato, Lobato considerava um livro sem ilustrações algo sem graça e enfadonho. A publicação é de formato grande, capa dura e ilustrado a três cores. Requintes inusitados no padrão editorial da época – um grande avanço implantado pelo editor Lobato.

Página de rosto de A Menina do Narizinho Arrebitado, 1920. Edição facsimilar, coleção Magno Silveira

Página de rosto de A Menina do Narizinho Arrebitado, 1920. Edição fac-similar, col. Magno Silveira

 

Considerado um livro raro (na Biblioteca Nacional fartei-me ao folhear o original), A Menina do Narizinho Arrebitado tornou-se acessível hoje, graças à iniciativa do bibliófilo José Mindlin. Em 1982, com patrocínio da Metal Leve, Mindlin nos presenteou com uma edição fac-similar, alusiva ao centenário de nascimento de Lobato. A Menina do Narizinho Arrebitado tem 44 páginas, letras grandes, leitura divertida bem ao gosto das crianças.

Em 1921, embalado pelo sucesso do livro e vendo o potencial do universo que começara, Lobato retoma sua Lúcia na Revista do Brasil, com novas aventuras: no número 61 (jan, 1921), três historinhas; no número 62 (fev, 1921), mais duas. Vasculhando sebos aqui e ali, consegui juntar os dois volumes da Revista:

Revista do Brasil, N.61, 1921. Na última capa, anúncio de Narizinho Arrebitado, versão escolar das aventuras já incorporando as novas historinhas publicadas na Revista. Col. Magno Silveira

 

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Revista do Brasil, N.62, fev.1921. Col. Magno Silveira

 

As historinhas publicadas na Revista do Brasil estão sob o título geral de Lucia ou A Menina do Narizinho Arrebitado, seguido de uma introdução:

“A nossa literatura infantil tem sido, com poucas excepções, pobrissima de arte, e cheia de artifício – fria, desengraçada, pretenciosa. (…) Felizmente esboça-se uma reacção salutar. Puros homens de letras voltam-se para o genero, tão nobre, por ventura mais nobre do que qualquer outro. entre esses figura Monteiro Lobato, que publicou em lindo album illustrado o conto da ‘Menina do narizinho arrebitado’, e agora o vai ampliando de novos episodios, alguns do quaes se reproduzem aqui.”

As ilustrações são de Voltolino, mas a vinheta que encabeça o material é do artista J.Prado, que fez diversos trabalhos tanto para a Revista do Brasil quanto para a editora Monteiro Lobato & Cia.

Revista do Brasil, 1921. Vinheta de J.Prado. Coleção Magno Silveira

 

Juntando A Menina do Narizinho Arrebitado (1920) às histórias publicadas na Revista do Brasil (1921), Lobato lança, ainda neste ano, a edição escolar de sua personagem sob o título Narizinho Arrebitado  Segundo Livro de Leitura para Uso das Escolas Primárias (aquele anunciado na capa da Revista do Brasil).

Narizinho Arrebitado já “ostenta” 182 páginas, totalmente ilustradas em preto e branco por Voltolino. Em sua divulgação, Monteiro Lobato inova outra vez, fazendo um anúncio em página inteira de jornal. Com depoimentos de professores, críticos e crianças, o reclame explora ao máximo o prestígio do ilustrador – Voltolino já era artista reconhecido na época.

Tiragem espantosa de 50.500 exemplares (dos quais 500 foram para divulgação nas escolas), Narizinho Arrebitado foi um sucesso. Ainda hoje, cavucando bem, é possível encontrar esse livrinho de amigável formato escolar. Consegui um, em muito bom estado, através de contato no Recife, os familiares se desfazendo dos livros do avô guardados num baú.

   Narizinho Arrebitado, 1ª ed. 1921. Desenhos de Voltolino.                  Col. Magno Silveira

 

Narizinho Arrebitado anunciado em página inteira do Correio Paulistano, abril de 1921. Acervo Biblioteca Nacional

 

Esses dois livros – de 1920 e de 1921 – são o começo daquilo que se tornaria mais tarde o robusto livro de 300 páginas com as aventuras de Lúcia, seu primo Pedrinho, a boneca Emília, o marquês de Rabicó, um certo Visconde de Sabugosa…

 

Vinheta

“Tenho em composição um livro absolutamente original, Reinações de Narizinho – consolidação num volume grande dessas aventuras que tenho publicado por partes, com melhorias, aumentos e unificações num todo harmônico.” (Monteiro Lobato em carta ao amigo Godofredo Rangel, outubro de 1931)

*  *  *

De 1922 a 1931, Monteiro Lobato escreveu nove livrinhos com a turma de Lúcia. Alguns, durante sua estadia nos Estados Unidos como adido comercial do governo Washington Luís. O Marquez de Rabicó, O Noivado de Narizinho, O Gato Félix, As Aventuras do Príncipe, A Cara de Coruja, O Irmão de Pinocchio, O Circo de Escavalinho, A Pena de Papagaio e O Pó de Pirlimpimpim  são narrativas independentes que dão continuidade às aventuras de Narizinho. Esses livrinhos são a paixão de colecionadores, objetos disputados a alto preço nos leilões. Em algumas ocasiões acompanhei essas disputas, sem nunca arrematar nenhum. Tenho três deles por obra e graça do contato direto com os livreiros (aos quais agradeço).

O Marquez de Rabicó

O Marquez de Rabicó, 1922

ONoivadoNarizinho

O Noivado de Narizinho, 1924

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Aventuras do Príncipe, 1928

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O Gato Félix, 1928

A Cara de Coruja

A Cara de Coruja, 1928

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O Irmão de Pinocchio, 1929

O Circo de Escavallinho

O Circo de Escavallinho, 1929

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A Penna de Papagaio, 1930

O Pó de Pirlimpimpim

O Pó de Pirlimpimpim, 1931

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 1931, Lobato reúne tudo – A Menina do Narizinho Arrebitado, Narizinho Arrebitado mais os nove livrinhos – num só volume, com o título de As Reinações de Narizinho. Para tanto, ele reorganiza e reescreve textos a fim de conseguir unidade na obra. Os nove livrinhos se transformam em capítulos. O resultado é um livro parrudo com cerca de 300 páginas. Livro “para se ler”, conforme descreve o autor.

A tabela abaixo, extraída de Monteiro Lobato Livro a Livro (obra infantil) organizado por Marisa Lajolo e Luís Ceccantini (editora Unesp, 2008), nos fornece uma visão detalhada dos livros que, transformados em capítulos, compõem As Reinações de Narizinho (1931). Segundo Denise Maria de Paiva Bertolucci (obra citada), “É em ‘Reinações’ que se apresenta, se caracteriza e se firma o núcleo lobatiano (…) e se estabelece o Sítio do Picapau Amarelo como espaço das histórias (…)”

Tabela

* O Noivado de Narizinho foi publicado em 1924.

 

Porém, dois anos depois (agonia dos colecionadores!), talvez por sentir o tomo “gordo” demais para as crianças, Lobato divide As Reinações de Narizinho em dois volumes…

Assim, em 1933, temos o primeiro volume sob o título Reinações de Narizinho, que vai até o capítulo “Aventuras do Príncipe”; e o segundo volume, chamado Novas Reinações de Narizinho com os capítulos restantes. Ambos maravilhosamente ilustrados por Jean Gabriel Villin – artista francês naturalizado brasileiro. (Tenho apenas o primeiro volume – ainda.)

Reinações de Narizinho, 1933. Na capa foi eliminado o artigo "As", presente na primeira edição.

Reinações de Narizinho, 1933. Na capa foi eliminado o artigo “as”, presente na primeira edição. Ilustração de Jean Gabriel Villin. Coleção Magno Silveira

 

Folha de rosto, onde foi acrescido o artigo "As". Acervo particular

Folha de rosto da mesma edição, 1933. Diferente da capa, foi mantido o “as” da edição de 1931. Col. Magno Silveira

 

Ilustração de Jean Villin. Reinações de Narizinho, 1933. Coleção Magno Silveira

Ilustração de Jean Villin. Reinações de Narizinho, 1933. Col. Magno Silveira

 

As ilustrações de Jean Villin têm um “tom local” dificilmente encontrado em outro ilustrador. Suas paisagens trazem bananeiras, jabuticabeiras, carro-de-boi… A litogravura para as guardas de Reinações de Narizinho é sensacional – personagens saindo das páginas e se espalhando pelo Sítio. Ao fundo, uma típica casinha do interior rodeada (é de se imaginar) por pés de manga e abacate. Dona Benta quase surge à porta, assustada com a invasão que jorra do livro de Lúcia.

Litogravura de Jean Villin. Guardas de Reinações de Narizinho, 1933. Col. Magno Silveira

 

A partir da quarta edição os dois títulos voltam a ser um só volume e o artigo “As” é retirado em definitivo. Daqui em diante Reinações de Narizinho se estabiliza em sua estrutura.

Visconde

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amos ao ano de 1943, com a 10ª edição de Reinações de Narizinho. A folha de rosto informa que estão reunidos ali os volumes 1 e 11 da Biblioteca Pedagógica Brasileira, ou seja: Reinações de Narizinho (volume 1, 1933) e As Novas Reinações de Narizinho (volume 11, 1933). Repare como Lobato destaca que esse volume contém todas as travessuras de Narizinho, Pedrinho, Emília, Rabicó”… (grifo meu). A capa e as ilustrações são de J.U.Campos, genro de Monteiro Lobato.

Reinações de Narizinho, 10ª.ed., 1943. Capa de J.U.Campos. Coleção Magno Silveira

 

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Folha de rosto da 10ª ed., 1943. No destaque, a indicação de que este volume contém todos os capítulos dos volumes 1 e 11 que Lobato separara em 1933 (destaque feito por mim). Coleção Magno Silveira

 

Monteiro Lobato morreu em 1948, não sem antes organizar toda sua obra adulta e infantil. Naquele ano, publicado pela Editora Brasiliense, temos uma coleção de capas com cores berrantes, feitas por Augustus. Essa edição marcou gerações, a minha inclusive. As ilustrações internas ficaram a cargo de André Le Blanc que, com sua arte de padrão internacional, tornou aquelas 300 páginas de aventuras ainda mais encantadoras para a meninada.

Personagem marcante da literatura brasileira, com seu narizinho arrebitado, há 96 anos Lúcia faz parte da formação de todos nós – admiradores ou não das inquietações de Monteiro Lobato.

Em 1948 a capa de Reinações de Narizinho traz as cores vibrantes e o ângulo inusitado do artista Augustus. Col. Magno Silveira.

 

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Contatos: magno@ochapeupensador.com.br

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Marcas e Caminhos Criativos – o design de Magno Silveira

por Magno Silveira em 20/06/2012

Cartaz da exposição Marcas e Caminhos Criativos

Em abril deste ano o SESC São José dos Campos realizou uma exposição dos meus trabalhos de marca. Reencontrar esboços, primeiras anotações, erros e acertos do processo criativo e organizá-los estabelecendo uma leitura, foi um excelente exercício para mim. Foi como se olhasse para os trabalhos através de uma nova perspectiva graças ao distanciamento temporal. Depois, ao vê-los reunidos na exposição, tive a certeza de que já tinham vida própria e de fato sempre estiveram prontos para enfrentar o mercado.

Para a palestra de abertura tivemos o mestre Alexandre Wollner – uma honra indescritível. Wollner lotou o auditório e foi preciso colocar um telão no ambiente da comedoria do SESC. Recorde de público que surpreendeu o mestre. Disse-lhe então que ele havia chegado ao status de um pop-star. “Minha mulher precisa saber disso…”– respondeu, com aquela risada característica.

Magno e Wollner

Telão instalado para a palestra do Wollner

Palestra de Alexandre Wollner

Para o folder de divulgação, Rômulo Pinheiro –  Sócio-Diretor da Ásia Branding (grupo ABC), escreveu sobre a relação do design de marca e o branding. Um texto esclarecedor, que também muito me honrou.

Folder exposição

Cada painel da exposição aborda o processo criativo de determinada marca, com inclusão dos primeiros esboços, além dos módulos construtivos.

Patricia Peck Pinheiro Advogados

Motopiloto

Caule

Biz Interbusiness Tech

Festidança Fundação Cultural Cassiano Ricardo

Cidade de São José dos Campos

Exposição Realidade Abstrata

 

Muito bacana ver o nosso trabalho despertando interesse nos estudantes, contribuindo na sua formação. Uma experiência inesquecível.

Encáustica

por Magno Silveira em 15/06/2012

Gosto da palavra “encáustica”. Para mim ela traduz perfeitamente essa técnica de pintura: tem um pouco de rispidez, de épico, de escavação. Todas as vezes que contemplo uma encáustica de Jasper Johns, me vem uma sensação de quase paladar, tal é o envolvimento sensorial que ele alcança com a sua obra. E sempre meu deu vontade de aventurar naquela textura. A encáustica é um processo que requer organização do material de trabalho e um procedimento ritualístico, quase alquímico: lidamos com fogo, água, cera de abelha, pigmentos e toda espécie de material, se quisermos fazer colagem. O que mais me empolga é justamente esta possibilidade de colagens e escavações. Arrependimentos de camadas sobrepostas e recuperação de cores e texturas que, em algum momento, foram encobertas. Prezo a desorganização (!) e por isso, sofri muito para fazer este primeiro trabalho. Queimei os pés com cera derretida; dedos, com água fervendo; e cortei a mão diversas vezes, em diversas camadas (rsrs) ao esfarinhar o bloco sólido de cera com espátula.
Demorei semanas para terminar a obra. As possibilidades são infinitas e, ainda por cima, escolhi uma dimensão que não favoreceu (em torno de 1,30m). Até que um dia resolvi liquidar o embate e enfrentei à altura o suporte de madeira coberto já por várias camadas de tentativas. O resultado aí está – gosto da composição equilibrada e da poética que surge através das camadas arqueológicas. Escavações de uma infância.

Mariantonios

por Magno Silveira em 14/03/2012

Mariantonios é um e-zine de trabalhos experimentais que se valem de uma precariedade necessária, recusando a conclusão, o acabamento. Como a minha labuta é desenhar marcas e projetos que precisam muitas vezes de objetividade e – sempre – de precisão, publicar no Mariantonios significou remexer as gavetas das mapotecas e desentocar trabalhos que ainda trazem o frescor da experimentação e do estampido. Neste número 2, o zine publicou um trabalho que fiz por volta de 1984, nos tempos de artes plásticas na Escola Guignard, em Belo Horizonte. Intimamente dei pra colagem o nome de República da Iraí – a rua do antigo prédio onde fundamos uma república de grandes amigos. Hoje, graças ao distanciamento no tempo, vejo na colagem ecos da minha admiração pelas obras de Paul Klee, Picasso e Marc Chagall. Veja o Mariantonios aqui.

Sobre pinturas digitais

por Magno Silveira em 14/03/2012

Hoje saiu uma matéria no Diário do Comércio, São Paulo, sobre as pinturas feitas no iPhone e iPad. A jornalista Kety Shapazian se interessou por algumas pinturas digitais que cometi, publicadas neste blog e fez uma matéria na medida. Saber que o David Hockney também pinta digitalmente, para mim, foi surpreendente e fico envaidecido por estar ao lado dele numa mesma página. Para ler, clique aqui.

 

A Cara do Brasil para entender o Cala Boca Galvão!

por Magno Silveira em 14/03/2012

Com esse negócio de Copa do Mundo e todas as paixões que ela contém, aqui no Magno Studio nos envolvemos num pequeno debate sobre o acontecimento “Cala Boca Galvão!” que se tornou mais um case da/na internet. Ninguém sabe como começam essas coisas na rede, parece que Alguém postou que Cala Boca Galvão seria um novo hit da Lady Gaga e todo mundo saiu retuitando e a coisa foi se transformando em outra. Lembrou-me uma velha história de uma galinha assustada que, após uma pimenta cair em sua cabeça, fez uma tremenda confusão no terreiro onde ciscava, correndo estabanada alardeando o fim do mundo. Rapidamente patos e outros bichos a seguiram em desespero, sem perceber que o fim do mundo não passava de uma pimentinha caída na cabeça.
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Laurie Anderson

por Magno Silveira em 14/03/2012

Às vésperas de começar algumas práticas de gravura usando ferramentas e suporte tradicionais, no atelier do amigo George Gütlich (ok, zg, vc venceu!), recebo um livro aguardado há semanas: Night Life. Laurie Anderson é sua autora e ela me fascina desde os anos 1980 quando nos empolgou com O Superman – música crítica-minimalista-sintética-mântrica …
Em 2005, Laurie Anderson fez uma série de shows solo que chamou de The End of the Moon. Grande contadora de histórias, diz que naquela temporada começou a ter sonhos muito vívidos e instigantes. “I began to draw my dreams literally out of self-defense”.
Armada de um computador e tablet colocados ao lado de sua cama, nos hotéis, ela acordava no meio da noite e registrava os sonhos de maneira imediata, sem procurar interpretar ou pensar nos seus significados. Os desenhos e pinturas resultantes desse processo estão em Night Life, acompanhados de pequenos textos prosa-poéticos relativos ao sonho.
Laurie Anderson, artista da vanguarda multimídia no tempo em que ainda nem sabíamos muito bem a abrangência desta palavra (hoje fora de moda), continua a me inspirar. Fico pensando sobre a importância de se dominar a técnica tradicional da gravura (ou demais técnicas) para chegarmos a uma expressão artística, face à urgência existencial de registrarmos as imagens que habitam nossos sonhos. Interessam-me os gadgets, as tablets, os Macs porque eles me permitem a urgência. Os suportes e ferramentas tradicionais – tintas, grafite, goivas, metais e suas alquimias, ocupam o espaço atemporal das virtuoses. Formam uma espécie de bússola que nos ajuda na viagem, que exige disciplina e paciência para ser construída. Precisamos dos dois – me diz Laurie Anderson com sua música, seu desenho.

01.02.2005 – “The Hudson River is calm today ruffled by only a few whitecaps. I turn my head for a second. When I look back everything’s chaos.”

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Atelier de bolso #6

por Magno Silveira em 14/03/2012

Enquanto não me reaproximo da pintura em sua forma tradicional (pincel, tinta, suportes…), seguem mais algumas experiências intercalando os apps Pollock e Brushes no iPhone. Um, permite o gestual e o imprevisível; o outro, as texturas, o diálogo das cores.


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Imagens

por Magno Silveira em 14/03/2012

Existem imagens que nos seguem desde sempre. No meu caso, é a imagem do casal “Sagrado Coração”. Desde a infância, por longo tempo, contemplava a estampa religiosa na parede da copa. No final dos anos 1980 quis revolver um pouco a minha visão estabelecida da imagem e fiz um trabalho inspirado numa linguagem pop, voluntariamente “pobre” e “suja”. Utilizei lápis, guache e esmalte sintético prata. A minha intenção foi criar um espaço, uma moldura, onde a imagem do casal fosse passando como num clip musical, com movimentos repetidos e mecanizados. Com certeza para aliviar um pouco os olhos piedosos, gestos de aceitação e cores singelas daquela gravura persistente da infância. Às vezes penso em iconoclastia. Às vezes, em novas formas de reverência.


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Urupês, por Paim

por Magno Silveira em 14/03/2012

Entre os meus livros que precisam de restauração, encontro o Urupês, contos de Monteiro Lobato onde aparece pela primeira vez o Jéca Tatu. O exemplar é de 1944, publicado pela Livraria Martins Editora e parece-me ser a 4ª edição. Antônio Paim Vieira é o seu ilustrador. Paim, paulistano (1895-1988), morreu praticamente esquecido, mas foi um artista atuante nos movimentos nacionalistas do início do século XX, participando, inclusive, da Semana de Arte Moderna de 1922. É responsável pela capa da edição luxuosa de As Máscaras (1920), de Menotti del Picchia, o que lhe deu projeção como ilustrador, e por muitas outras capas das revistas Fon-Fon, A Cigarra e Para Todos. Buscou diferentes formas de expressão: pintor, ceramista, ilustrador, cenarista e professor, Paim buscou uma “estética brasileira” em seus trabalhos. Nestas ilustrações de Urupês, impressionam-me a rusticidade do pincel obtida por um movimento às vezes longo e sinuoso, às vezes curto e tosco e também as grandes capitulares integrando a mancha ilustrativa.


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Poty

por Magno Silveira em 14/03/2012

Napoleon Potyguara Lazzarotto, ou Poty, é o grande ilustrador de Guimarães Rosa. Claro que existem as capas despretensiosas das primeiras edições de Sagarana, feitas por Santa Rosa e os desenhos e xilos cheios de intenção do mineiro Arlindo Daibert, que não podemos ignorar. Mas Poty para mim ficou, desde a adolescência, irremediavelmente associado ao universo roseano. Filho de italianos, nascido em Curitiba (1924 – 1998), com 19 anos já tinha ilustrações publicadas em Lenda da Herva Mate Sapecada. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e aos 22 anos foi para a frança, com bolsa de estudos, onde aprendeu litografia. Poty dominou também as técnicas do mural, da serigrafia, da xilografia e da pintura. Muitos críticos consideram os seus murais como o trabalho mais representativo de sua obra. Eu prefiro suas xilos e bicos-de-pena principalmente quando rodeados por textos de Guimarães Rosa. Seguem aqui algumas de suas ilustrações retiradas de duas edições de Sagarana, para compararmos os resultados que ele conseguiu a bico-de-pena (10ª edição) com as mesmas ilustrações em xilogravura (19ª edição). As duas soluções me fascinam: os bicos-de-pena pela fluidez dos traços, pelos meios-tons, a textura; as xilogravuras pela crueza, pela determinação e arrojo das áreas negras. Personagens que transitam pelo norte de Minas, sul da Bahia, tão belamente ilustrados por um artista do Sul.


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Saudade, 1919

por Magno Silveira em 14/03/2012

Thales Castanho de Andrade, escritor piracicabano, tem como principal obra o livro Saudade, lançado em 1919. Este livro é objeto de alguns estudos acadêmicos sobre as relações cidade/campo, ruralismo/nacionalismo. É considerado um clássico por alguns estudiosos, um marco na literatura infanto-juvenil. Conta a história de… bem, não vou recontar o livro. Quero mesmo é falar sobre as ilustrações que o permeiam fartamente, de J. G. Villin. Elas nos enchem os olhos de maneira soberba, com alguns momentos de toques épicos. Montanhas, campos, árvores, casas, bichos – tudo nos fala em qual país se passa a história e nos reconhecemos ali. Hoje, querer estes valores numa ilustração soa como um pecado original. Saudade, nem pensar.






Atelier de bolso #5

por Magno Silveira em 14/03/2012

Seguem mais alguns ensaios “pintados” na telinha do iPhone. Faço como uma colagem explorando a sobreposição de camadas para obter um resultado um tanto “sujo”, mas com certo lirismo que as letras ajudam a alcançar. O grande barato é lidar com a limitação do tamanho físico do aparelho, ainda mais que tenho o hábito de fazer uma pintura gestual quando lido com materiais reais. Destes três painéis, gosto mais do primeiro: resultou numa imagem mais espontânea, mais precária, porém mais expressiva.


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J. U. Campos e os personagens do Sítio

por Magno Silveira em 14/03/2012

Existe uma bela edição da obra completa de Monteiro Lobato em capa dura que contém, além das conhecidas (e deliciosas) ilustrações de André Le Blanc, também pranchas a cores pintadas por J. U. Campos. Jurandir Ubirajara Campos nasceu em São Paulo em 1903, foi para os Estados Unidos onde se tornou desenhista do New York Times. Quando voltou ao Brasil em 1930, contribuiu para a implantação de uma nova arte a serviço da propaganda. Monteiro Lobato era seu sogro e um dos grandes incentivadores do artista. Morreu em 1972, São Paulo. Aprecie algumas destas pranchas e veja como as atuais edições da obra de Lobato carecem de trabalho a altura desse passado histórico.


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Eis o brilho

por Magno Silveira em 14/03/2012

A minha última postagem, sobre as estampas coloridas a têmpera, rendeu-me um e-mail de leitor assíduo e exigente cobrando uma solução que possibilite visualizar o brilho feito a clara de ovo sobre as pinturas. “Que faça a coisa acontecer”, encerrou ele o seu e-mail que me envaideceu por ter leitores assim, aguerridos. Bem, esperei o sol da tarde entrar no estúdio e consegui uns ângulos que demonstram o “verniz” das pinturas. Agradeçam ao exigente leitor este plus. De minha parte, está aqui o agradecimento e o abraço fraterno.

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Moda de igreja

por Magno Silveira em 14/03/2012

Uma vez entrei numa espécie de antiquário, mas estava mais para uma casa entulhada, com pertences de um velho italiano saudoso de sua pátria. Queria voltar logo para a Itália onde pretendia passar o resto de seus dias e estava liquidando os pertences: móveis, velhos filmes fotográficos, livros, gramofone, rádio… Ele notou minha curiosidade com os livros, foi até um quartinho (impossível para qualquer outro mortal entrar) e de lá veio trazendo uma série de gravuras colorizadas à mão. Mais de 50 folhas com estampas retratando ordens religiosas e suas vestes características. Deliciei-me com a têmpera coberta em alguns trechos por um brilho feito a clara de ovo (infelizmente é impossível perceber esse brilho aqui, nos scanners). Isto aconteceu há uns cinco anos e desde então procuro referências históricas para estas gravuras. Se alguém tiver maiores informações, queira escrever para este pobre blogueiro.


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Flâmulas

por Magno Silveira em 14/03/2012

Tenho uma pequena coleção de flâmulas, garimpadas em um antiquário mineiro. Sempre me fascinou este universo de símbolos distintivos, bandeirolas. Certamente a flâmula mantém ligação com os estandartes medievais que representavam um cavaleiro, um rei, um navio, um exército… Na minha infância vi muito dessas flâmulas de esporte, de colégio, de cidades. Falar em cidades, observe a flâmula da inauguração de Brasília: toda negra. Premonição?


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Augustus

por Magno Silveira em 14/03/2012

Há poucos dias ganhei de um amigo, Patrick, um volume das Aventuras do Barão de Munchausen. Uma edição que eu ainda não conhecia, com uma gostosa capa de Augustus. Lembrei-me das capas que este artista fizera para a coleção infantil de Monteiro Lobato publicada nos anos 1940 – 1950. O Jean cedeu-me alguns volumes da sua coleção para que eu pudesse publicar as capas aqui. Uma curiosidade é a incrível semelhança entre a Dona Benta desenhada pelo Augustus e a personagem que Zilka Salaberry interpretou na série clássica do Sítio do Picapau Amarelo na televisão:






Girando na mente

por Magno Silveira em 14/03/2012

Apaixonado pela música Domingo no Parque, de Gilberto Gil,
(veja letra) fiz, há alguns anos, umas ilustrações inspiradas nas xilogravuras de cordel e nas histórias em quadrinhos na tentativa de expressar o ritmo e a dramaticidade da composição cheia de tomadas cinematográficas. Veja o que deu:



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Um baiano da Argentina

por Magno Silveira em 14/03/2012

Em 1955 foi lançada, pela Livraria Progresso Editora, uma série de 10 livretos intitulada Coleção Recôncavo. Ela aborda temas variados da Bahia, com uma breve introdução a diversos desenhos de Carybé. Hector Julio Páride Bernabó, ou Carybé (apelido que ganhou no Brasil), nasceu em 1911 na Argentina e naturalizou-se brasileiro. Morreu em Salvador em 1997 durante uma sessão num terreiro de candomblé. Com traços de alta precisão e elegância, Carybé ilustrou magistralmente os costumes baianos. Hoje faço uma postagem com amostras do caderno número 2, cujo tema é o Pelourinho. Aos poucos postarei todos os cadernos.


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