O Chapéu Pensador

Encáustica

por Magno Silveira em 15/06/2012

Gosto da palavra “encáustica”. Para mim ela traduz perfeitamente essa técnica de pintura: tem um pouco de rispidez, de épico, de escavação. Todas as vezes que contemplo uma encáustica de Jasper Johns, me vem uma sensação de quase paladar, tal é o envolvimento sensorial que ele alcança com a sua obra. E sempre meu deu vontade de aventurar naquela textura. A encáustica é um processo que requer organização do material de trabalho e um procedimento ritualístico, quase alquímico: lidamos com fogo, água, cera de abelha, pigmentos e toda espécie de material, se quisermos fazer colagem. O que mais me empolga é justamente esta possibilidade de colagens e escavações. Arrependimentos de camadas sobrepostas e recuperação de cores e texturas que, em algum momento, foram encobertas. Prezo a desorganização (!) e por isso, sofri muito para fazer este primeiro trabalho. Queimei os pés com cera derretida; dedos, com água fervendo; e cortei a mão diversas vezes, em diversas camadas (rsrs) ao esfarinhar o bloco sólido de cera com espátula.
Demorei semanas para terminar a obra. As possibilidades são infinitas e, ainda por cima, escolhi uma dimensão que não favoreceu (em torno de 1,30m). Até que um dia resolvi liquidar o embate e enfrentei à altura o suporte de madeira coberto já por várias camadas de tentativas. O resultado aí está – gosto da composição equilibrada e da poética que surge através das camadas arqueológicas. Escavações de uma infância.

Poty

por Magno Silveira em 14/03/2012

Napoleon Potyguara Lazzarotto, ou Poty, é o grande ilustrador de Guimarães Rosa. Claro que existem as capas despretensiosas das primeiras edições de Sagarana, feitas por Santa Rosa e os desenhos e xilos cheios de intenção do mineiro Arlindo Daibert, que não podemos ignorar. Mas Poty para mim ficou, desde a adolescência, irremediavelmente associado ao universo roseano. Filho de italianos, nascido em Curitiba (1924 – 1998), com 19 anos já tinha ilustrações publicadas em Lenda da Herva Mate Sapecada. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e aos 22 anos foi para a frança, com bolsa de estudos, onde aprendeu litografia. Poty dominou também as técnicas do mural, da serigrafia, da xilografia e da pintura. Muitos críticos consideram os seus murais como o trabalho mais representativo de sua obra. Eu prefiro suas xilos e bicos-de-pena principalmente quando rodeados por textos de Guimarães Rosa. Seguem aqui algumas de suas ilustrações retiradas de duas edições de Sagarana, para compararmos os resultados que ele conseguiu a bico-de-pena (10ª edição) com as mesmas ilustrações em xilogravura (19ª edição). As duas soluções me fascinam: os bicos-de-pena pela fluidez dos traços, pelos meios-tons, a textura; as xilogravuras pela crueza, pela determinação e arrojo das áreas negras. Personagens que transitam pelo norte de Minas, sul da Bahia, tão belamente ilustrados por um artista do Sul.


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Saudade, 1919

por Magno Silveira em 14/03/2012

Thales Castanho de Andrade, escritor piracicabano, tem como principal obra o livro Saudade, lançado em 1919. Este livro é objeto de alguns estudos acadêmicos sobre as relações cidade/campo, ruralismo/nacionalismo. É considerado um clássico por alguns estudiosos, um marco na literatura infanto-juvenil. Conta a história de… bem, não vou recontar o livro. Quero mesmo é falar sobre as ilustrações que o permeiam fartamente, de J. G. Villin. Elas nos enchem os olhos de maneira soberba, com alguns momentos de toques épicos. Montanhas, campos, árvores, casas, bichos – tudo nos fala em qual país se passa a história e nos reconhecemos ali. Hoje, querer estes valores numa ilustração soa como um pecado original. Saudade, nem pensar.