Encáustica

por Magno Silveira em 15/06/2012

Gosto da palavra “encáustica”. Para mim ela traduz perfeitamente essa técnica de pintura: tem um pouco de rispidez, de épico, de escavação. Todas as vezes que contemplo uma encáustica de Jasper Johns, me vem uma sensação de quase paladar, tal é o envolvimento sensorial que ele alcança com a sua obra. E sempre meu deu vontade de aventurar naquela textura. A encáustica é um processo que requer organização do material de trabalho e um procedimento ritualístico, quase alquímico: lidamos com fogo, água, cera de abelha, pigmentos e toda espécie de material, se quisermos fazer colagem. O que mais me empolga é justamente esta possibilidade de colagens e escavações. Arrependimentos de camadas sobrepostas e recuperação de cores e texturas que, em algum momento, foram encobertas. Prezo a desorganização (!) e por isso, sofri muito para fazer este primeiro trabalho. Queimei os pés com cera derretida; dedos, com água fervendo; e cortei a mão diversas vezes, em diversas camadas (rsrs) ao esfarinhar o bloco sólido de cera com espátula.
Demorei semanas para terminar a obra. As possibilidades são infinitas e, ainda por cima, escolhi uma dimensão que não favoreceu (em torno de 1,30m). Até que um dia resolvi liquidar o embate e enfrentei à altura o suporte de madeira coberto já por várias camadas de tentativas. O resultado aí está – gosto da composição equilibrada e da poética que surge através das camadas arqueológicas. Escavações de uma infância.

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